“Não te contentes com as coisas da terra, quando o céu te chama!” – Papa Leão XVI
Há momentos em que, mesmo cercados de coisas boas, alguma coisa dentro de nós continua dizendo que não podemos viver apenas na superfície. O sentimento de “FALTA ALGO” arde nosso coração. A gente tenta encontrar respostas em tantos lugares, mas o coração continua procurando.
Isso acontece, talvez, porque Deus inscreveu em nosso coração uma sede que nenhuma realidade terrena é capaz de saciar plenamente. Essa inquietação profunda somente encontra descanso quando passamos a contemplar e acolher o projeto que Ele sonhou para a nossa vida. E, quando Cristo atravessa a nossa história, Ele não nos convida à acomodação nem a permanecer na segurança das margens; ao contrário, chama-nos a confiar mais profundamente em Sua palavra e a avançar com coragem. Por isso, dirige também a nós o mesmo convite feito a Pedro: “Ide para as águas mais profundas” (Lc 5,4).
Ir para águas mais profundas nem sempre é fácil. É deixar de perguntar apenas “o que eu quero para a minha vida?” e começar a perguntar: “Senhor, o que Tu sonhas para mim?” Existe uma vocação que é só nossa. Existe um jeito de amar, servir, anunciar e entregar a própria vida que Deus pensou para você.
Talvez você ainda não saiba exatamente qual é. Talvez tenha medo de descobrir. Mas assumir a própria vocação começa quando paramos de fugir do chamado. Pedro precisou deixar a segurança da margem para lançar as redes (Lc 5). Nós também precisamos, em algum momento, decidir se vamos apenas admirar Jesus passando ou se vamos entrar no barco com Ele.
O Papa Leão XIV, ao falar sobre a inquietação que tantas vezes atravessa o coração dos jovens, nos lembra da importância de não fugir dela, mas de colocá-la diante de Deus. Na oração, na Palavra, nos sacramentos e no silêncio, vamos aprendendo a reconhecer aquilo que acontece dentro de nós. Nem sempre Deus responde às nossas perguntas imediatamente. Muitas vezes, Ele nos ensina primeiro a permanecer ao seu lado, mesmo quando não compreendemos tudo o que está acontecendo. E é justamente nesse caminho que a inquietação começa a se transformar: aquilo que antes parecia apenas um vazio passa a se tornar um desejo de estar mais perto de Deus, uma vontade de rezar, de confiar novamente e de voltar para os seus caminhos.
Ir para águas mais profundas, então, também pode significar isso: deixar uma relação superficial com Deus. Não procurá-Lo somente quando precisamos de uma resposta, quando alguma coisa dói ou quando a vida sai do lugar. É aprender a estar com Ele também quando não temos nada para pedir. É permitir que Deus conheça nossas dúvidas, nossos medos, nossas alegrias e até aquilo que não conseguimos colocar em palavras. Porque, quanto mais nos aproximamos d’Ele, mais percebemos que a paz que procurávamos em tantas coisas não estava necessariamente em encontrar uma vida sem problemas, mas em descobrir com quem queremos atravessar tudo isso.
Por isso, se hoje o seu coração está inquieto, não tenha medo dessa inquietação. Ela pode ser o modo delicado com que Deus está batendo à porta da sua vida. Desacelere. Faça silêncio. Reze. Permaneça alguns minutos diante do Senhor, mesmo que lhe faltem respostas. Às vezes, a inquietação não é sinal de que Deus está distante, mas de que Ele está passando mais perto. O céu continua chamando, e nos chamando pelo nome. Deus sabe de todas nossas inquietudes, solitudes e dificuldades, mas nunca nos abandona.