A liturgia deste domingo nos toca direto no coração: Jesus está no deserto, sozinho, com fome, e o inimigo aparece (cf. Mt 4, 1-11).
Mas quem é esse inimigo? O Papa Francisco nos lembra que a palavra diabo significa exatamente isso: divisor (cf. Angêlus, 26.02.2023[1]). A missão dele é sempre a mesma, separar. Dividir o Filho do Pai. Dividir o homem de Deus. Dividir o coração do seguidor de tudo aquilo que ele verdadeiramente é.
Depois do Batismo no Jordão, o Pai falou sobre Jesus diante de todos: “Este é o meu Filho amado, no qual ponho a minha afeição” (Mt 3, 17). Jesus sabe quem Ele é. Sabe a quem pertence. E é exatamente aí que o inimigo ataca, porque o divisor sempre mira no que é mais precioso.
Nós, do Segue-Me, sabemos o que é ouvir um chamado assim. Jesus passou por Mateus, um cobrador de impostos, alguém que a sociedade já havia descartado, e disse palavras simples: “Segue-me” (Mt 9, 9). E Mateus se levantou e foi. Não porque tinha tudo resolvido. Mas porque reconheceu a voz de quem o amava. Nós também já ouvimos essa voz, na pia batismal, no encontro, nos pós-encontros, no fundo da consciência, no silêncio de uma oração sincera. E nós também, como Jesus, somos tentados a esquecer isso.
É nesse lugar de reconhecimento e de fragilidade ao mesmo tempo que recordamos da nossa Oração do Seguidor. Ela não é a oração de quem chegou. É a oração de quem está no caminho e sabe que precisa de ajuda pra continuar. E por isso ela começa exatamente assim: “Senhor, ouvi a tua voz dizendo: Segue-me. Eis-me aqui, a tua disposição. O que queres de mim? Seguir-te para onde? Para que? Senhor, mostra-me o que queres, pois me coloco à tua disposição. Dá-me a sensibilidade de entender a tua vontade.”
É com esse coração aberto, mas ainda inseguro, que Jesus nos convida a entrar no deserto com Ele.
E no deserto, o tentador não age de forma barulhenta. Age com sutileza. O Papa Francisco nos ensina que ele usa três venenos poderosos, e a gente os reconhece porque fazem parte do dia a dia.
As três tentações são venenos que a gente conhece bem. O apego, que é tentar preencher com coisas o que só Deus consegue completar. A desconfiança, que é exigir provas antes de confiar em alguém que já provou que te ama. E o poder, que é a ilusão de que a gente consegue resolver tudo sozinho, sem precisar de ninguém.
E como Jesus venceu? O segredo é simples e poderoso: Ele não dialoga com o tentador. Não negocia, não discute. Ele responde com a Palavra de Deus. “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4). “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4, 7). “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás” (Mt 4, 10). Três tentações, três respostas da Escritura. Entre todas as vozes que se agitam dentro da gente, a Palavra de Deus tem o poder de reorientar o coração.
A Quaresma é um deserto de reencontro, não de abandono. É o grito do Salmo 51: “Criai em mim um coração puro, ó Deus“, não o grito dos perfeitos, mas dos que voltam.
E é desse lugar que, novamente, lembramos que a Oração do Seguidor faz todo o sentido. Ela não pede um caminho fácil. Ela pede coragem para seguir o caminho que Deus mostrar, seja ele qual for. “Dá-me coragem para realizar o que me pedes. Dá-me alegria para seguir o teu chamado. Seja para apreciar contigo as belezas do Monte Tabor, seja para partilhar contigo os sofrimentos do Calvário. Que a tua graça sempre me acompanhe, para que eu não desanime perante as dificuldades, o desânimo ou o abandono de outros seguidores.”
Porque seguir Jesus não é seguir um projeto. É seguir uma Pessoa. Um Deus de amor que entra no deserto junto com a gente, que conhece a fome e o cansaço, que foi tentado como nós e saiu vitorioso, não para nos impressionar, mas pra nos mostrar que é possível.
Por fim, o deserto para juventude, também, é aquela fase da vida em que a gente se sente perdido sem saber bem por quê. É a pressão para ser alguém que a gente ainda não sabe se quer ser. É a comparação que corrói por dentro, alimentada por uma tela que nunca desliga. É a solidão que aparece no meio de uma roda de amigos. É a ansiedade que chega de madrugada sem pedir licença. É a sensação de que todo mundo tem um propósito menos você. É o relacionamento que machucou, a família que não entende, a fé que balança quando a vida não sai como o planejado.
A juventude conhece muito bem o deserto. Não porque é fraca, mas porque está viva, está crescendo, está buscando. E é exatamente nesse lugar de busca e de luta que Jesus aparece. Não para dizer que o deserto não existe. Mas para entrar nele junto.
No deserto, o seguidor descobre, ou redescobre, a quem pertence. E quando isso acontece, a resposta é sempre a mesma: a gente se levanta e O segue.
Hoje, Cristo entra no deserto. E nos convida a entrar com Ele.
[1] https://www.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2023/documents/20230226-angelus.html
Idalino Goularte Junior
Diocese de Jardim/MS
Paróquia Nossa Senhora Imaculada Conceição

